Para além das famosas praias que consagram o litoral de Alagoas, novos atrativos mostram que o estado tem muito mais a oferecer além das belezas naturais. É no interior, rico em tradições, cultura e fé, que a recém-criada Rota da Devoção surge como divisor de águas para o turismo alternativo alagoano. Idealizado em uma parceria estratégica entre o Sebrae Alagoas, Instância de Governança Regional (IGR) Serras e Quilombos e Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV), com o apoio do poder público, o roteiro foi apresentado oficialmente por meio de um famtour exclusivo para operadoras e agências de viagens.
O evento marca a transformação das manifestações da fé, que já costumam reunir grande número de fiéis, em um produto turístico estruturado, capaz de atrair visitantes durante todo o ano, rompendo a barreira do fluxo restrito aos períodos de festejos religiosos. No Brasil, o turismo da religião é um dos mais robustos, injetando cerca de R$15 bilhões anuais na economia nacional. É o destino preferido de 30% dos brasileiros com mais de 60 anos, segmento que atrai o chamado “turista híbrido”, que une a devoção espiritual à vivência cultural e histórica, de acordo com informações Diário do Turismo. É neste mercado que o interior alagoano passa a disputar de forma competitiva, de acordo com a analista do Sebrae Alagoas, Susylane Ferreira.
“Nós temos os atrativos naturais e a força da fé enraizados na nossa cultura, com força para atrair visitantes de todo o país e até do exterior. Para transformar esse potencial em desenvolvimento real, o setor privado e o público se uniram para caminhar juntos, com o Sebrae atuando como parceiro crucial nesta virada de chave. Da mesma forma como estruturamos a Rota da Cachaça e outros produtos turísticos no interior, temos a certeza de que a Rota da Devoção será um sucesso absoluto. A partir desse famtour, a reação dos empresários e profissionais do segmento mostra que estamos no caminho certo para que seja criado um fluxo permanente de visitantes”, explica.

Além de atuar na formatação técnica do roteiro junto às prefeituras e entidades, o Sebrae também atuou na base da pirâmide produtiva, preparando pequenos empreendedores, como artesãos e proprietários de restaurantes e lanchonetes, além de qualificar guias locais e agências. O objetivo é garantir que a riqueza da vivência espiritual seja acompanhada de uma infraestrutura de serviços que gere emprego e renda diretamente nas comunidades.
História e consciência ecológica
O passeio teve início na histórica Vila São Francisco, em Quebrangulo. Fundada na primeira metade do século 20 por Antônio Fernandes de Amorim, mais conhecido como Beato Franciscano, foi por muitos anos o refúgio espiritual de Frei Damião durante, que costumava se dirigir para o local para iniciar a preparação para a quaresma. Além do santuário, o local abriga também um museu que preserva o mobiliário, trajes e objetos sacros do “Santo do Nordeste”, que todos os anos continua atraindo multidões em romarias principalmente no período do carnaval.
O potencial para receber visitantes de janeiro a dezembro reside, nas belezas naturais da região e no sonho inacabado do italiano Frei Otávio, que viu nas colinas locais semelhanças com a cidade de Assis, na Itália e iniciou a construção de uma réplica da Basílica de São Francisco, inacabada desde o falecimento do religioso, e na devoção local, que movimenta o santuário também no dia da Benção dos Óleos de São Félix, que acontece mensalmente.
Ainda em Quebrangulo, o grupo visitou a Capela de Nossa Senhora Aparecida, tradicionalmente conhecida como Capela do Incra, situada no Assentamento Maniva Romualdo. A 560 metros de altitude, o templo oferece uma visão panorâmica do município, que une o turismo sagrado ao ecológico. De lá, é possível avistar áreas de mata preservada pela ONG suíça Nordesta, tanto dentro da área urbana, como na Reserva Biológica de Pedra Talhada, que oferece trilhas ecoturísticas apoiadas pelo Sebrae. O roteiro na cidade ainda passou pela Igreja Matriz de Bom Jesus dos Pobres, que somada à Capela do Cruzeiro, compõem a herança católica local.

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Altar da fé e dos milagres
O percurso do famtour seguiu em direção ao Santuário de Frei Damião, no distrito de Canafístula, em Palmeira dos Índios, Nas décadas de 1970 e 1980, o frade capuchinho arrastava multidões em suas Santas Missões no local onde hoje está erguida uma estátua em sua homenagem, com 20 metros de altura.
Na comunidade, a residência que recebia o missionário e a capela original onde ele celebrava missas está preservada dentro da Associação Frei Damião, que abriga também a famosa fonte, cuja água, originalmente salobra, tornou-se potável após a benção do religioso e que, por conta disso, é considerada milagrosa. Para a comunidade local, o turismo religioso não é apenas uma homenagem ao frade, mas a principal fonte de renda para artesãos e pequenos comerciantes que vivem da venda de artigos religiosos.

Ainda em Palmeira dos Índios, o grupo seguiu para a Serra do Goití onde fica localizada a imagem do Cristo Redentor, tradicional ponto turístico do município. Para reforçar a aura religiosa do local, o município deve inaugurar no começo do segundo semestre a instalação de estátuas em tamanho natural representando as 14 estações da Paixão de Cristo até a crucificação.
A proposta de encerramento do roteiro foi aproveitar o pôr do sol no Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Maribondo. Inaugurado em 2024 na Serra das Microondas, o complexo conta com uma imagem de 18 metros e infraestrutura de acolhimento, com capela, mirante e ponto de apoio.
A experiência provocou forte impacto nos agentes de viagens. Cristina Vieira, empresário do setor em Maceió, tem certeza do êxito do novo produto. “Todo mundo já está acostumado a ver Alagoas como um destino de sol e mar, mas momentos como este mostram que o nosso estado tem uma riqueza muito maior, oferecendo uma vivência profunda de cultura e fé. O que para nós é comum, para quem vem de fora é extraordinário. O turismo religioso tem muita força e esse movimento só tende a crescer com a parceria do Sebrae, da Instância e da ABAV”, comenta.
Integração é a chave para o desenvolvimento
Para os organizadores e participantes do famtour, o sucesso do roteiro religioso pode ser resumido em uma palavra: integração. Para Ricardo Coimbra, gerente adjunto do Sebrae em Arapiraca, os municípios sozinhos não alcançariam o mesmo êxito. “Esse roteiro mostra a importância da regionalização. Não adianta os municípios trabalharem o turismo de forma isolada. A integração é a verdadeira chave do crescimento”, afirma.
Reforçando esse sentimento, o presidente da IGR Serras e Quilombos ressaltou que somente com a vivência prática é possível perceber a riqueza da experiência. “Há lugares pitorescos pelos quais passamos no dia a dia sem dar o devido valor, mas vê-los é diferente de vivê-los. Quem trabalha com o turismo só consegue transmitir o verdadeiro valor quando sente, experimenta e se emociona no local”, conclui.
Ao falar sobre o potencial local, a presidente da ABAV, Luciana Calheiros lançou um desafio aos profissionais do setor, ressaltando as vantagens logísticas da região, como a proximidade e o fácil acesso a partir de Maceió, além da acolhida e gastronomia. “Saímos daqui com o dever de casa de formatar, no mínimo, um produto turístico definitivo. Este roteiro está no perfil exato de comercialização, seja em viagens de dois, três dias, ou até mesmo um bate e volta, é possível trabalhar os municípios de forma integrada, promovendo saídas regulares durante todo o ano”, ressalta.
Ao final do passeio, o clima entre os empresários e agentes turísticos confirmou que a fé, além de sustentar a cultura das comunidades visitadas, é também um caminho promissor para o empreendedorismo e transformação social. Ao estruturar a Rota da Devoção, o Sebrae Alagoas reforça seu compromisso de descentralizar a economia do turismo, levando visibilidade, dignidade e desenvolvimento sustentável para comunidades do interior.

