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Gestão no campo: Sebrae impulsiona a pecuária de corte em Alagoas e transforma fazendas em negócios competitivos

Consultorias especializadas em gestão, tecnologia e boas práticas produtivas elevam produtividade, faturamento e profissionalizam a criação de gado de corte no estado
Por Nathalia Conrado
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A pecuária de corte vive um novo momento em Alagoas. Tradicionalmente associada a modelos extensivos e pouca organização gerencial, a atividade começa a ganhar contornos mais empresariais, impulsionada pela adoção de tecnologia, planejamento e gestão orientada por dados. Nesse movimento, o Sebrae tem desempenhado papel estratégico ao aproximar pequenos e médios produtores rurais de consultorias especializadas, capazes de transformar a rotina de campo em resultado econômico mensurável.

Em um estado marcado historicamente pela força da cana-de-açúcar, a diversificação produtiva ganhou ritmo nos últimos anos, especialmente após a redução do número de usinas. Muitos produtores migraram para a pecuária, atividade que já existia como reserva patrimonial, mas que agora passa por um processo de profissionalização.

Segundo dados do próprio Sebrae, o agronegócio representa hoje um dos principais vetores de geração de renda no interior alagoano, acompanhando uma tendência nacional. Uma estimativa recente da cadeia da carne bovina aponta que o setor movimentou cerca de R$ 987 bilhões em 2024, o que equivale a cerca de 8,4% do PIB total do Brasil, considerando emprego direto e indireto e valor econômico gerado.

A pecuária de corte em Alagoas vive um novo momento, com mais gestão, tecnologia e foco em produtividade e competitividade no campo. Foto: Julio Vasconcelos

Gestão como ponto de virada no campo

De acordo com a analista do Sebrae Alagoas, Cristina Loureiro, o principal desafio enfrentado hoje pela pecuária não está apenas na produção, mas na forma como o negócio é administrado.

“O Sebrae atua para desenvolver o gestor do negócio rural. A pecuária precisa ser vista como uma empresa, com custos, despesas, planejamento e resultado. Muitos produtores ainda misturam renda pessoal com renda da fazenda, o que dificulta entender se a atividade realmente é sustentável”, explica.

Ela destaca que o foco é fortalecer o empreendimento. “Quando o produtor passa a enxergar a fazenda como empresa, ele começa a tomar decisões mais estratégicas”, afirma.”

Essa lógica se materializa por meio do Sebraetec, programa voltado à inovação e tecnologia, que subsidia até 70% do valor das consultorias técnicas, permitindo que pequenos e médios produtores tenham acesso a acompanhamento especializado.

Cristina Loureiro reforça que a pecuária deve ser tratada como empresa, com gestão, controle de custos e decisões estratégicas no campo. Foto: Julio Vasconcelos

Da gestão à escala: a transformação da Fazenda Camaratuba

Em Viçosa, na Zona da Mata alagoana, a Fazenda Camaratuba é um exemplo claro de como a gestão pode redefinir o desempenho de uma propriedade. Administrada por Amarilio Carlos Monteiro, a fazenda atua na recria e engorda de novilhas e passou por um processo intenso de organização produtiva e gerencial ao longo dos últimos anos.

“Sempre entendi que a fazenda é um negócio como outro qualquer. Ela precisa produzir, pagar todo mundo e lucrar”, resume Amarilio.

Mesmo com essa visão empresarial já consolidada, ele reconhece que a consultoria trouxe um salto de organização. “A consultoria ajudou a deixar a fazenda ainda mais profissional. Hoje os dados estão mais próximos da mão e mais fáceis para tomar decisão”, diz.

Amarilio Monteiro ressalta que a Fazenda Camaratuba é tratada como um negócio, com foco em organização, resultado e lucratividade. Foto: Julio Vasconcelos

O acompanhamento técnico, realizado pela Start Soluções no Agronegócio, credenciada ao Sebraetec, organizou indicadores produtivos e financeiros, implantou sistemas de gestão e criou uma cultura de análise contínua. Segundo o consultor Marcelo Araújo, o trabalho não foi criar dados novos, mas organizar informações que já existiam. “Os dados sempre existiram, mas estavam espalhados. Para tomar uma decisão era preciso abrir várias planilhas. Hoje, com relatórios consolidados, a decisão é muito mais rápida”, explica.

Os resultados aparecem nos números. Durante o período da consultoria, a Fazenda Camaratuba registrou crescimento de 29,16% no faturamento por hectare, aumento de 20,75% na produção de arrobas por hectare e avanço de 6,08% no ganho médio diário dos animais. Indicadores que demonstram eficiência produtiva sem ampliação de área.

A Fazenda Camaratuba registrou aumento no faturamento por hectare, maior produção de arrobas e ganhos de eficiência produtiva com apoio da gestão e da consultoria.

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Boi de Engenho como elo da cadeia

A profissionalização da Fazenda Camaratuba não se limita aos resultados dentro da porteira. Parte fundamental dessa estratégia está na conexão direta com o mercado por meio da Boi de Engenho, empresa criada pela Cooperativa a qual Amarilio Monteiro faz parte.
A Boi de Engenho nasceu com o propósito de ir além da venda tradicional de gado, apostando na valorização da carne, na padronização do produto e na construção de uma marca ligada à qualidade, à origem e ao manejo responsável.

Com foco em carne premium, a empresa estabeleceu critérios rigorosos de genética, manejo, bem-estar animal e acabamento de carcaça, criando um mercado próprio e mais previsível para os produtores parceiros.

“O que a gente buscava era previsibilidade. Ter a certeza de que o boi produzido teria destino certo, com critérios claros e um padrão de qualidade”, explica o produtor.

O sucesso da Boi de Engenho acabou atraindo novos cooperados, entre eles o advogado e produtor rural Fábio Henrique Cavalcante Gomes, da Agropecuária 4 Corações.

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Salto de produtividade e inovação na Agropecuária 4 Corações

Se na Camaratuba o destaque está no refinamento da gestão e na previsibilidade, na Agropecuária 4 Corações, em Quebrangulo, o cenário é de salto estrutural. A fazenda, administrada pelo advogado e produtor rural Fábio Henrique Cavalcante Gomes, atua no ciclo completo da pecuária, de cria à engorda, e investe fortemente em inovação e valor agregado.

“Entrei na pecuária por herança, mas não quis fazer mais do mesmo. A pecuária aqui sempre foi muito tradicional, e eu vi um campo enorme para evoluir”, conta.

Inovação, planejamento e bem-estar animal marcam a atuação de Fábio Henrique na Agropecuária 4 Corações. Foto: Julio Vasconcelos

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A propriedade implantou sistema de pastagem rotacionada, inseminação artificial há mais de 15 anos e adotou práticas de bem-estar animal que ainda causam estranhamento na região. “Hoje todo o ciclo é pensado a partir do bem-estar animal. Isso é uma quebra de paradigma”, afirma.

Com a entrada da consultoria do Sebrae, o foco passou a ser planejamento econômico e tomada de decisão baseada em dados. “A consultoria trouxe método e ajudou a colocar freio nos investimentos. A fazenda consome recursos infinitamente se não houver planejamento”, diz o produtor.

Os resultados são expressivos. Entre as safras de 2024 e 2025, a Agropecuária 4 Corações registrou aumento de 66,3% no faturamento por hectare, crescimento de 20,9% no ganho médio diário dos animais e elevação de 12% na produção de arrobas por hectare.

Além da produtividade, a fazenda avança para um novo patamar ao integrar a Boi de Engenho. “A ideia é ir além da commodity e entregar um produto diferenciado”, destaca Fábio.

A Agropecuária 4 Corações alcançou crescimento expressivo de faturamento e produtividade ao investir em planejamento, inovação e gestão orientada por dados.

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Consultoria como política de desenvolvimento

Para o gerente da Unidade de Competitividade Setorial do Sebrae Alagoas, Henrique Soares, os exemplos das duas fazendas mostram como a consultoria técnica se torna uma ferramenta de desenvolvimento regional. “O Sebrae atua para tornar o produtor mais competitivo. Quando ele entende seus números, organiza processos e planeja o negócio, a atividade se fortalece e gera impacto econômico para toda a região”, afirma.

O superintendente do Sebrae Alagoas, Domício Silva, reforça que o foco da instituição é democratizar o acesso à inovação. “A consultoria subsidiada permite que o pequeno e médio produtor tenha acesso a conhecimento técnico, gestão e tecnologia, criando negócios mais sustentáveis e preparados para o mercado”, pontua.

As histórias da Fazenda Camaratuba e da Agropecuária 4 Corações mostram que a transformação da pecuária passa menos por expansão de área e mais por organização, planejamento e gestão.

Ao oferecer consultorias especializadas e subsidiadas, o Sebrae amplia o acesso à inovação e fortalece o pequeno e micro empreendedor rural. Gestão no campo não é tendência, é necessidade. E, com apoio técnico e orientação adequada, o produtor consegue transformar desafio em resultado.