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Engenho São Lourenço: alquimia da rapadura transforma tradição em referência turística e de gestão

Empreendedor moderniza legado deixado por avó e torna chácara um destino charmoso em Água Branca
Por Patrícia Bastos
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Em Água Branca, onde a neblina desafia o calor nordestino, o legado de um “mestre de açúcar” aliado à modernização e à diversificação das atividades, transformou uma propriedade rural em um dos destinos mais charmosos no Alto Sertão alagoano. O Engenho São Lourenço é mais do que um monumento à tradição açucareira, é um caso de sucesso que mostra que é possível abraçar a inovação sem perder a identidade, oferecendo aos visitantes uma experiência que une o passado ao presente.

Para alcançar esse patamar, os empreendedores Maurício Brandão e Sylvia Patriota contam com um trunfo. Há mais de duas décadas, o Sebrae Alagoas é o braço direito dos empreendedores, oferecendo o suporte técnico fundamental para que a chácara consiga atender as exigências do mercado moderno sem perder a sua essência. O reconhecimento desse esforço mútuo aconteceu recentemente com um prêmio concedido pela instituição, que celebra a excelência na gestão e na capacidade de escalada do negócio. Segundo Lidyane Bezerra, analista do Sebrae, o troféu é símbolo de uma jornada de profissionalização profunda.

“Há mais de 20 anos, o Engenho São Lourenço acredita no poder transformador do Sebrae. Ao longo dessa trajetória, sempre atento às mudanças do mercado, o empreendimento buscou acompanhar as transformações e encontrou no Sebrae um parceiro estratégico, acessando soluções de consultoria, capacitações e diversas outras ações voltadas à inovação. Esse troféu representa o quanto o Engenho avançou em maturidade de gestão”, destaca, pontuando que o amadurecimento transformou o negócio em uma referência do segmento.

Reconhecimento que traduz uma trajetória de evolução: Maurício Brandão e Sylvia Patriota, com apoio do Sebrae, transformando o engenho em um case de sucesso

Do silêncio das máquinas ao resgate de um legado

A história do Engenho São Lourenço começou em 1920, pelas mãos de Lourenço Bezerra de Melo. Na época, o forte da economia era a cana de açúcar, que o patriarca transformava em rapadura, que após embalada de forma tradicional, na palha da bananeira, era vendida na região. O trabalho na moenda e o calor das fornalhas fazem parte das memórias mais doces de Maurício Brandão, que acompanhava o avô na lida diária.

Quando o jovem de 16 anos partiu de Água Branca para estudar em Aracaju aos poucos as moendas foram silenciando. Lourenço, idoso e já sem forças para seguir sozinho, encerrou as atividades e vendeu o maquinário.

O engenho silenciou por quase 20 anos, até que a memória afetiva e os pedidos da mãe e da tia para que Maurício voltasse para Água Branca falaram mais alto, e ele abandonou um futuro na engenharia civil para reconstruir do zero o legado do avô. Como as terras originais que serviam para o plantio da cana e produção de rapadura, na Serra do Canto, não tinham mais uma localização favorável, o Engenho São Lourenço renasceu em outro local, às margens da AL-145, em um terreno que Maurício herdou do seu saudoso avô e onde ele construiu seu lar ao lado de Sylvia.

“Ele abandonou a faculdade de engenharia e retornou com o intuito de reconstruir o engenho e dar continuidade ao trabalho daquele homem que ele sempre admirou. Foi assim que o Engenho São Lourenço voltou às atividades há cerca de 28 anos. A gente tinha necessidade de uma sustentabilidade financeira, mas principalmente porque Maurício sempre quis, mais do que tudo, homenagear o avô”, conta Sylvia, administradora do empreendimento.

Entre a moenda e a memória, o trabalho no engenho mantém viva uma tradição que atravessa gerações

Inovação como caminho para a sobrevivência

Recomeçar a produção artesanal de rapadura foi apenas o primeiro passo de uma jornada íngreme. Pouco tempo depois o casal percebeu que o doce rústico não tinha mais o mesmo mercado da época do patriarca Lourenço, e, para manter o legado dele vivo, a inovação era uma questão de sobrevivência. O baixo valor agregado não era capaz de sustentar a manutenção do canavial e da família durante os seis meses de entressafra.

Foi neste período que a presença do Sebrae mudou os rumos do negócio. Sem uma agência local, Maurício e Sylvia eram acompanhados por um analista de Maceió, que precisava viajar periodicamente para a propriedade e assim começou uma das parcerias mais longevas entre uma empresa do Sertão e o Sebrae Alagoas. Uma das primeiras inovações foi melhorar a apresentação do produto.

“Percebemos que para manter o engenho funcionando, teríamos que fazer mudanças drásticas na embalagem e no processo de produção. Antes, com a rapadura enrolada na palha da bananeira, a gente saía procurando clientes e implorando nos mercados, hoje podemos nos dar o luxo de escolher para quem vender. Muitos supermercados ligam e a gente não tem como atender, porque cerca de 80% da rapadura vai para a nossa fábrica de sorvete e restaurante”, conta Sylvia.

Nascimento de um ícone gastronômico

Além da rapadura, o açúcar mascavo e o alfenim também passaram a ser comercializados em embalagens modernas. No mesmo período, a adequação do espaço para atender as exigências sanitárias possibilitou que o engenho se tornasse ponto de visitação. Ao abrir as portas para os turistas, logo os empreendedores perceberam que poderiam ampliar o leque de experiências oferecidas no local. O que começou com a venda de caldo de cana e pastéis de sabores diferenciados, evoluiu para um restaurante de alta gastronomia regional, que eleva ingredientes sertanejos, como a tilápia pescada no rio São Francisco e a tradicional carne de bode, a um novo patamar de sofisticação.

O cardápio conta ainda com uma carta de vinhos, cervejas artesanais, drinks que aproveitam as frutas da região e cachaças artesanais, incluindo os rótulos fabricados no local, que também estão disponíveis para a venda.

Atualmente, se a moenda trabalha com as receitas centenárias de Lourenço, com processos modernizados, Maurício e Sylvia elevaram os produtos a outro patamar. Com sabores tradicionais e exóticos, aproveitando frutas da região, como ouricuri, murici e tamarindo, a criação da sorveteria artesanal foi uma jogada de mestre. Os sabores ganham identidade própria e originalidade ao substituírem o açúcar cristal tradicional pelas variações produzidas no próprio engenho e o famoso sorvete frito de rapadura, reconhecido como patrimônio cultural local, se tornou objeto de desejo entre os turistas que passam pela região.

“A rapadura hoje está presente em todos os produtos da nossa sorveteria. Foi o meio que encontramos para agregar valor a o produto, que historicamente é muito barato. Apesar de tudo ter começado com ela, hoje a sustentabilidade financeira da empresa está no restaurante e na fábrica de sorvete. Nossos produtos também são fornecidos para quase 40 clientes externos, como conveniências e outros restaurantes da região”, explica.

Da rapadura ao sorvete: sabores que reinventam o doce e conquistam quem passa por lá

Parceria atinge nível de excelência

Se a paixão de Maurício e a visão de Sylvia foram o combustível da inovação do Engenho São Lourenço, o Sebrae Alagoas foi o motor dessa trajetória. A presença da instituição é visível em todo o empreendimento, desde a cozinha planejada para garantir a higiene e otimizar o fluxo, até o posicionamento da marca nas redes sociais. A transformação do engenho tradicional em uma agroindústria moderna e destino turístico exigiu, e depende até hoje, de aprendizado constante, por meio de consultorias, capacitações e outras ações de inovação.

A parceria preparou o Engenho para ser uma vitrine de Água Branca e de Alagoas, com destaque em eventos como a Expoagro, e alcançou mercados em estados vizinhos, como Pernambuco, Bahia e Sergipe. A maturidade de gestão permitiu ao negócio superar crises e se consolidar como um importante empregador e gerador de renda no município sertanejo.

Lidyane Bezerra reforça que o sucesso do negócio é reflexo da busca constante por melhorias, que ajudaram a marca São Lourenço a se tornar referência. “Através das últimas soluções acessadas, o cliente conseguiu promover mais espaço e conforto para seus clientes, investiu na capacitação da equipe de atendimento, fortaleceu sua presença no marketing digital e trabalhou de forma mais estratégica a gestão de vendas. O troféu de reconhecimento é o resultado de uma busca constante por inovação e qualificação, conectando o negócio à identidade do território”, conclui a analista.

O Engenho São Lourenço é um exemplo de que unir a identidade à gestão profissional, inovar sem perder as raízes, pode transformar memórias, que estavam destinadas a serem esquecidas, em um legado próspero, que alimenta a economia local.