
Quando tudo estava pronto para a inauguração do Odara Restaurante, a empresária Ivanilda Luz teve de comunicar ao público que a abertura do estabelecimento, que estava prevista para acontecer no dia 23 de abril, seria adiada em razão da pandemia do novo coronavírus — e das medidas restritivas adotadas pelo poder público para conter a propagação da Covid-19 em Alagoas. Diante do novo cenário e da falta de previsão para o retorno presencial das atividades comerciais, a empresa teve de se reinventar para se lançar no mercado e se adaptar à nova realidade.
Apesar das incertezas do início da pandemia, a empresária – que também é chef de cozinha do restaurante – relata que decidiu iniciar as atividades da empresa utilizando o serviço de entrega. “Eu iria abrir no dia 23 de abril, que é dia de Ogum, São Jorge. Já estava tudo organizado para que ele abrisse, coisas compradas, eu tinha feito o plano de negócio, mas as pessoas que iriam entrar comigo na questão de investir, financeiramente falando, recuaram com medo da pandemia. Foi quando a gente colocou o delivery. E não havia outra opção para que a gente não ficasse parado esperando que tudo passasse”, conta.
Atualmente, o restaurante Odara está atendendo clientes através de pedidos no WhatsApp, no InstaDelivery, no iFood e numa loja virtual utilizada para venda de produtos adquiridos a partir de encomendas. Para se adaptar ao novo formato, que não está completamente alinhado ao que foi pensado e planejado anteriormente, a empresária Ivanilda Luz conta que precisou realizar uma série de mudanças. “A gente tinha uma ideia na cabeça e foi mudando o cardápio, foi mudando o preço, foi mudando o público que a gente tinha na mira. A gente teve que realmente fazer mudanças de um mês para o outro. E a gente está tentando se encaixar onde fica melhor no momento, mas está bem complicado”, recorda.
O serviço de entrega do Odara, com um cardápio recheados de pratos da culinária afro-brasileira, está funcionando desde o início de junho, mas a loja virtual da empresa, com encomendas de produtos caseiros como cocada em calda, doce de abóbora com coco, geleia de frutas, compotas e biscoitos, já está disponível desde o mês de abril. De acordo com a proprietária da empresa, o início do atendimento presencial no restaurante, que fica localizado no bairro da Jatiúca, em Maceió, pode acontecer neste mês.
“O Odara está, hoje, como delivery por conta da pandemia, mas tem uma pretensão muito maior e quando puder abrir suas portas ele quer realmente ser voltado para a comunidade, principalmente para a comunidade preta. Estamos com uma ideia de começar pelo menos com reservas, pouquíssimas mesas agora na segunda quinzena de setembro”, informa.
O conceito do Odara
De acordo com o site da empresa, o Odara “traz uma proposta de ancestralidade e valorização da cultura e da gastronomia afro-brasileira”. O restaurante tem por objetivo “fornecer aos seus clientes a história e a cultura afro-brasileira através do sabor”, além de expandir a “gastronomia afro-brasileira, respeitando a tradição e a ancestralidade”. “A minha ideia de ter um restaurante de cozinha afro-brasileira foi para mostrar a cultura do meu povo, a nossa história, não só da gastronomia, mas a questão cultural em si, da dança, da luta, das vestimentas, da arte, toda a história do povo afro”, afirma Ivanilda Luz.
A chef de cozinha explica que busca explorar no cardápio sabores e saberes que se relacionam com a memória afetiva do alagoano. “A gente tenta fazer uma mistura de sabores africanos, brasileiros e regionais e tentando sempre trazer para dentro deste cardápio os pratos veganos. A gente tenta não fugir tanto do que o pessoal está mais habituado a comer, trazendo para dentro da nossa proposta de cozinha afro-brasileira”, descreve.
Ainda conforme a proprietária do Odara, a valorização da agricultura familiar e do que é produzido localmente também é uma preocupação da empresa. “Um dos nossos principais focos é sempre usar os produtos nossos. A gente mira muito na agricultura familiar, nos pequenos produtores e compramos, sempre que possível, os insumos no mercado da produção. A gente apoia muito essa causa e está sempre tentando fazer a nossa parte”, ressalta.
Cozinheira desde a infância
A relação de Ivanilda Luz com a gastronomia afro-brasileira começou ainda na infância. Depois de se formar em hotelaria e gastronomia e de trabalhar em dois restaurantes na capital de Alagoas, a chef de cozinha decidiu, enfim, concretizar uma vontade que a acompanha há muitos anos: ter o próprio restaurante. “Eu venho de uma cozinha de candomblé há muito tempo, desde criança. Depois, me afastei um pouco, o tempo vai passando e você vai tomando outras linhas, mas eu voltei para a gastronomia porque é realmente a minha profissão. É o que eu sei fazer, o que eu gosto de fazer”, recorda.
Apoio do Sebrae em Alagoas
A relação de Ivanilda Luz com o Sebrae em Alagoas antecede a criação do restaurante Odara. O primeiro contato da empresária com a instituição aconteceu quando ela ainda trabalhava no ramo da confeitaria. Além de participar do Orienta Fácil, um projeto do Sebrae que promove ciclos de palestras para auxiliar pessoas interessadas em abrir novos negócios ou impulsionar empresas já existentes, a chef de cozinha também foi orientada a passar pelo processo de formalização para se tornar Microempreendedora Individual (MEI).
“Foi muito importante pra gente essa questão de não perder o contato com pessoas que podem nos orientar com consultoria de como você pode precificar seus produtos porque hoje o preço está de um jeito e amanhã já estará de outro, como investir o dinheiro, como trabalhar o caixa, o que é lucro, o que é despesa, como você pode ter bons fornecedores e como fazer uma boa propaganda, divulgação, que é também fundamental”, relata.
Para ela, empreender durante a pandemia tem sido uma experiência desafiadora e o apoio do Sebrae Alagoas tem sido essencial no atual contexto. “A gente está usando muito a linha das redes sociais, do Instagram, Facebook, WhatsApp, principalmente para quem é delivery porque as pessoas não vão até você, você é quem vai até as pessoas. Então, o Sebrae ajuda muito nessa questão da divulgação, de como fazer isso acontecer, de não deixar a gente se sentir solto. E isso é muito importante. A dificuldade vem e você quer desistir, mas achar o erro junto com alguém que possa te orientar faz toda a diferença”, destaca.
A concorrência na pandemia
Depois de adaptar o negócio ao novo contexto “da noite pro dia”, realizando mudanças que vão desde o cardápio até a entrega do produto, a empresária também tem sentido dificuldade para lidar com a concorrência elevada em meio à crise.
“Muita gente que não é da gastronomia foi para a gastronomia durante a pandemia, e de uma certa forma isso nos prejudica (para quem é da área) porque competir com alguém que está fazendo comida em casa, não paga aluguel, não faz ficha técnica é bem cruel, mas depois eu penso e percebo que, por mais difícil que pareça, desistir não é a solução”, defende.
Perspectivas para o futuro
Quando questionada sobre o que espera do futuro pós-pandemia, a empresária disse que tem esperança e que acredita que o restaurante vai cumprir o objetivo de evidenciar a cultura afro-brasileira por meio de sabores ancestrais. “Eu espero que o meu negócio seja grandioso. Toda vez que eu fecho os olhos e penso no Odara futuramente eu só imagino ele imenso. Eu não consigo pensar nele fechado, pequeno. Eu só penso nele grandioso e quando eu falo grandioso não é no sentido de ser um espaço enorme, luxuoso, mas grandioso de poder cumprir com a proposta de chegar nas pessoas que eu quero que ele chegue, fazer a transformação que eu quero que ele faça, mostrar para as pessoas o que eu quero que o Odara mostre”, enfatiza.
O lugar que a culinária afro-brasileira merece
Para a chef de cozinha, a culinária afro-brasileira tem potencial para se tornar protagonista e alcançar a mesma posição de destaque que a gastronomia típica de outros países ocupa no Brasil.
“A cozinha brasileira ainda é colocada em segundo plano, ficando atrás da cozinha francesa, italiana, por exemplo. E quando eu falo da minha cozinha, que eu possa mostrar a minha cozinha sem ser discriminada, sem ser barrada, sabe? Mas estou sobrevivendo para que eu possa mostrar o que existe de bom na cozinha brasileira, na afro-brasileira, na nossa história. Que a gente possa, depois que passar por tudo isso, ter a grandiosidade de entender que não dá para ir sozinho para lugar nenhum. A gente só consegue chegar lá em cima se for todo mundo junto, sem querer ser melhor que o outro”, acredita.