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MCZ Play 2020 realiza painel sobre “Afeto e Cuidado” no Dia da Consciência Negra

Evento falou sobre a necessidade do afeto para consigo mesmo e também da importância de se perceber como pessoa preta, com uma história de luta e superação para contar
Por Derek Gustavo - Savannah Comunicação Corporativa
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A data 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. E a data foi marcada por painéis que debateram o Afroempreendedorismo no MCZ Play 2020, evento do Sebrae Alagoas com programação gratuita que vai até 24 de novembro. Um dos painéis falou sobre o tema “Afeto e Cuidado”. Dele, participaram Morgana Mendonça da Costa, estudante de Psicologia; Allexandrea Constantino, psicólogo e ator; e Mara Carolina de Lima Galvão, professora e afroempreendedora na Coloral, marca de roupas e acessórios.

Mara foi a mediadora do painel, e abriu o evento explicando que o afeto abordado na conversa não é o que envolve troca de carinhos. “Há uma preocupação, principalmente de quem empreende, de se preocupar com o afeto, as dores do outro, as necessidades do outro, aquilo que precisa ser cuidado. Quando falamos sobre pessoas pretas que empreendem, precisamos levar em consideração aspectos que minam esse cuidado, que nos tiram a percepção de que devemos receber esse afeto, esse cuidado, seja a partir de um produto que atenda às nossas necessidades, um serviço, uma ideia que sane as nossas dificuldades, coisas bem particulares. Quando a gente pensa como pessoa, quais são nossas dores, como a gente gosta de se ver representado. É preciso pensar nesses aspectos”, afirma Mara.

Ela continua dizendo que “quando a gente fala de afeto, como é relacionado com o trabalho, essa percepção como pessoa negra, no estado em que estamos, na cidade em que estamos, na condição atual. É interessante pensar que, apesar do estado e da cidade com uma história negra forte, esses elementos são meio que apagados, anulados ao longo da história. Isso repercute na dificuldade da gente assumir esses papéis”.

Morgana concorda, e diz que esse “apagamento” é algo histórico e muito forte. Pesa para isso o fato de que faz pouco tempo que os negros são considerados como cidadãos livres e que a história negra era contada por pessoas brancas. “Temos histórias fortes de apagamento e invisibilização. Uma delas é a Quebra de Xangô (invasão e destruição de terreiros de candomblé ocorrida em Maceió em 1912). Foi a destruição da nossa história, da nossa religião, das nossas crenças, e isso se estende até hoje. Alagoas é o estado que mais mata pessoas pretas, o estado com a polícia mais ostensiva também. Estamos tão preocupados em sobreviver que não temos a oportunidade de refletir”, diz Morgana.

Allexandrea conta que não se compreendia como uma pessoa afro, preta, indígena. Ele estudou na PUC do Rio de Janeiro, relacionou-se com pessoas brancas, mas percebia, toda vez que ia ao shopping, bolsas sendo seguradas com mais força quando passava perto. “A gente não pode perder de vista o olhar histórico. Quando compreendo de onde eu venho, percebo que estou muito aquém do que verdadeiramente mereço. Na faculdade comecei a fazer leituras, e é aí que entra a educação. Li autores brancos, mas o que importa é o que eles escreveram. Foucault fala de uma sociedade em que as pessoas se cuidam. Ele se referia aos gregos, mas isso existe de outros modos também. Ali ele dava dicas sutis, que a gente encontra também nas nossas tradições afroindígenas, como escrever sobre seus sonhos. Foi isso que me fez voltar a Maceió com outra perspectiva e aprendo que sim, sou afroindígena”, conta Allexandrea.

Ele prossegue ressaltando a importância de ter e ocupar um lugar de fala, e do impacto que isso pode causar nas outras pessoas. “De modo geral, o preto fica para depois. Minha experiência fora de Alagoas me fez entender a diferença do que é ser preto. Quando a gente pensa no autocuidado, precisa pensar nesses corpos. É importante que todos nós que estamos aqui tomemos compreensão da importância de ter e ocupar esse lugar de fala. É a representatividade, que traz um impacto nas crianças, nos jovens, adultos e idosos. E isso é importante porque ao meio-dia a referência que as pessoas têm durante o almoço são nossos corpos sendo assassinados pelo estado na TV. Passa como algo natural. Precisamos discutir sobre a saúde e o afeto dessas pessoas. Essa ilusão da universalidade cria doenças físicas e mentais, as quais as nossas populações estão até hoje sendo subjugadas”.

“A gente se reconhece nisso”, pontua Mara. “É quase um ciclo. Ao mesmo tempo, a gente vem buscando outras estratégias para tentar quebrar, interromper esse ciclo. A nossa arte, a valorização da nossa arte é uma dessas formas, um desses modos de aquilombamento. A gente percebe nas nossas atuações, nesse trabalho com a arte, a valorização daquilo que a gente manifesta, e ser colocado na verdade como preterido, sua cultura como preterida, a gente não se valoriza. Estamos vivendo um momento muito importante, essa onda de ‘Vidas Negras Importam’. Temos a oportunidade de fazer essa voz ser ouvida”.

Aquilombamento

“A gente ocupa vários espaços. O racismo que a gente sofre atravessa a gente em todos os lugares. Não tem como não misturar nossa vivência com o lado profissional. Eu estou estudando para ser psicóloga, mas não estarei nem acima nem abaixo. Estamos juntos, construindo algo importante. A saúde mental da população negra depende disso. Aí surge a necessidade de se aquilombar. Nossa sociedade foi construída de forma que torne difícil construir afetos. Trabalhamos para sobreviver e não construímos afetos com a gente mesmo e as pessoas iguais a gente. Daí vem a importância de discutir isso entre nós, de dar essa força, de estarmos sempre falando”, relata Morgana.

Allexandrea também fala sobre o aquilombamento. Segundo ele, é um processo que se aprende nas aldeias, nos quilombos, nos terreiros de candomblé. “Aquilombar é lembrar do quilombo [dos Palmares], do Zumbi. A gente não pode cansar de contar a nossa história. Quando a gente conta, está fazendo isso por nossos pais, nossos filhos. É ancestralidade. Não estamos falando de passado. Falo como artista do século 21, falo de ancestralidade, de contemporaneidade. Os estudos atuais se voltam para os terreiros, para as aldeias, para as tecnologias trazidas pelo saber dos povos indígenas.”.

Ele conclui fazendo um convite: visite um terreiro, visite uma aldeia. “Faça essa visita uma vez só. A partir daí podemos conversar sobre essa cultura, depois da abolição, da Quebra de Xangô. É desse povo que estamos falando, e é um povo muito forte, muito lindo. O povo alagoano é lindo. A gente precisa aprender a se valorizar, aprender com as mães, os mais velhos. O futuro não é feito pelas crianças. O futuro somos nós. Para ter o que comer amanhã, precisa plantar hoje”, conclui.

Contato para a imprensa:

Assessoria de Imprensa do Sebrae Alagoas

Débora de Brito

(82) 99162-5416

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