Do primeiro contato com o empreendedorismo à experiência de comercializar produtos em um dos maiores eventos de artesanato do estado, alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) estão vivenciando, na prática, o ciclo completo do empreendedor. Em Alagoas, o trabalho desenvolvido pelo Sebrae tem impulsionado trajetórias que passam pela descoberta de talentos, capacitação e chegam à inserção no mercado, como evidenciado durante a Artnor 2026.
Ao longo de 2025, o projeto Educação Empreendedora do Sebrae Alagoas realizou uma trilha de formação com alunos da EJA de Atalaia, onde foi identificado o potencial produtivo em crochê e técnicas manuais. Esses estudantes participaram de cinco formações voltadas ao desenvolvimento do comportamento empreendedor, transformando a aprendizagem em potência, criatividade e perspectiva de futuro.
Ao todo, cerca de 35 estudantes participaram de cada atividade, que abordou desde temas como empreender a própria vida, projeto de vida e relações humanas, até conteúdos voltados ao mercado, como organização das finanças e técnicas de conquista de clientes.

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Potencialidades de crescimento
Como forma de ampliar horizontes e mostrar, na prática, que é possível empreender, gerar renda e melhorar a qualidade de vida por meio do artesanato, a Secretaria Municipal de Educação de Atalaia, com apoio do Sebrae Alagoas, promoveu uma caravana técnica à Artnor com essas alunas da EJA. A iniciativa teve como objetivo estimular o protagonismo e apresentar novas possibilidades de crescimento.
Para a aluna e artesã da Escola Joaquim Fortunato Bittencourt, Maria Luciane, que atua com artesanato há 10 anos, a experiência foi marcante.
“Eu não sabia da existência desse lugar e, ao chegar lá, me deparei com aquele universo de artes lindas. Fiquei encantada com cada detalhe, com cada peça exposta, que considero como se fossem feitas pelos meus irmãos e amigas de profissão. Essa visita me deu ainda mais perseverança. Comecei decorando varandas e hoje faço de tudo: pano de prato, crochê, uma variedade de peças. Foi por meio do artesanato, com a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, que consegui me tornar artesã, então tenho fé no futuro”, compartilha.
A vivência também reforçou o movimento de organização dessas empreendedoras. Um dos objetivos da coordenação da EJA em Atalaia é a criação de uma Associação de Artesãs no município. Para contribuir com esse processo, a analista e coordenadora do Programa de Artesanato do Sebrae Alagoas, Marina Gatto, realizou uma oficina com orientações sobre os primeiros passos para a formalização e estruturação do grupo.
Atualmente, as alunas estão em processo de formalização junto à Sala do Empreendedor, buscando a emissão da carteirinha do artesão, etapa que amplia o acesso a novas capacitações e oportunidades no setor produtivo.
Conhecimento que transforma habilidade em negócio
Se por um lado os estudantes de Atalaia estão avançando nas etapas iniciais do ciclo empreendedor, por outro, alunas do curso PROEJA Técnico em Artesanato do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) já vivenciam a fase de inserção no mercado. Durante a Artnor 2026, elas participaram como expositoras, com estande próprio, apresentando seus produtos ao público.
O trabalho de Educação Empreendedora com cerca de 25 alunas do Ifal incluiu três oficinas, entre elas Como Empreender no Artesanato, Comunicação e Marketing e Viagem ao Mundo do Empreendedorismo, que contribuíram para a preparação das participantes, permitindo que validassem seus produtos e sua maturidade de mercado na prática.
“As formações de empreendedorismo mudaram completamente minha forma de enxergar o artesanato. Passei a entender meu trabalho como um negócio, com planejamento, precificação correta, identidade visual, posicionamento de marca e visão de futuro. Isso trouxe mais segurança, organização e clareza sobre meus objetivos. Amei estar entre a nata dos artesãos”, destaca a artesã e professora de artesanato do Ifal, Eunia Gizélia.
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Da sala de aula para o mercado real
Na Artnor as alunas do Ifal expuseram peças autorais, como bolsas, acessórios e itens de decoração produzidos com reaproveitamento de materiais e técnicas manuais. Os produtos refletiam identidade cultural, sustentabilidade e cuidado estético.

Para Edite Alves, que produziu bolsas de fuxico, a experiência foi decisiva para projetar o futuro. “O que mais me marcou foi ver a aceitação e a admiração do público pelo nosso trabalho. Isso me motivou a continuar participando de eventos como expositora e, quem sabe, montar meu próprio ateliê”, afirma.
Já para Eunia Gizélia, a participação na feira representou visibilidade, aprendizado e pertencimento. “Foi uma experiência transformadora e um momento de validação do meu trabalho enquanto artesã e empreendedora. O contato com o público e com outros expositores, as trocas de experiências e o reconhecimento do valor do trabalho manual reforçaram o sentido social e cultural do meu artesanato”, completa.

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Empreendedorismo como ferramenta de transformação social
Em paralelo às ações com estudantes do Ifal e de Atalaia, que já apresentam resultados concretos, o Sebrae Alagoas também desenvolve um trabalho mais amplo na Educação de Jovens e Adultos, voltado à formação de articuladores e formadores. A proposta é disseminar, nas redes municipais, uma metodologia própria de empreendedorismo, projeto de vida e finanças, em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME).
Segundo a analista do Sebrae Alagoas, Maysa Damasceno, o impacto desse investimento tende a ser rápido e direto.
“O investimento em empreendedorismo com o público da EJA traz um impacto muito mais rápido, pois se trata de pessoas já inseridas no mundo do trabalho, muitas vezes em situação de vulnerabilidade social, empreendendo por necessidade, de maneira informal e com pouco acesso a conhecimentos de gestão e precificação. O trabalho com esses estudantes resulta na melhoria da qualidade de vida, acesso à renda, incentivo à formalização e inserção mais rápida em setores produtivos locais como artesanato”, explica.

