A Artnor 2026 traz tradição e inovação em cada peça do artesanato alagoano que estará exposto durante o evento. Do bordado ponto cruz às peças feitas com palha de ouricuri, cada produto feito à mão transmite a arte milenar do artesanato, carregando a força do legado para as próximas gerações. Entre os mais de 80 artesãos presentes, Ariane Pita, do ateliê Bêlie, e Érica Gomes, da Associação de Artesãs do Pontal do Coruripe, compartilham história, técnicas e arte em cada criação.
O bordado ponto cruz
A prática do bordado ponto cruz remete a tempos antigos, da técnica milenar de simples costuras. Ao longo dos séculos, essa prática foi se desenvolvendo e ganhando formatos, cores e aplicações. Hoje, o trabalho desenvolvido na Bêlie une o tradicional a uma roupagem contemporânea, indo além de peças de moda e vestuário, e trazendo riqueza de detalhes e cultura em objetos e peças de decoração.
Arquiteta por formação, Ariane Pita iniciou seu trabalho como artesã como um hobby. Desde a infância, aprendeu o bordado ponto cruz com sua mãe, Arivânia Pita, e, ao longo dos anos, explorou outras práticas manuais como biscuit e origami. A criação do ateliê Bêlie, em 2017, surgiu da vontade de Ariane de enriquecer o trabalho realizado pela mãe.
“Hoje nós compomos o ateliê juntas, então minha referência de bordado foi toda com ela. A princípio, estava dando umas dicas do que fazer para ela, para ela executar, mas aí eu entrei no meio do processo e nunca mais saí. Hoje, me dedico 100% ao nosso trabalho”, compartilha Ariane.

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Diferencial e criatividade
O foco principal do trabalho é o bordado ponto cruz, mas na Bêlie as artesãs buscam a individualização, fugindo do lugar comum. As criações são inspiradas pelo ambiente onde o ateliê está localizado, na Barra de São Miguel, trazendo para as peças referências naturais como o encontro das águas, a vegetação tropical e os animais, além das manifestações artísticas, valorizando também as texturas e fibras naturais.
Como diretora criativa da Bêlie, Adriane conta que a constante sede por inovação, seja nos processos, no uso de materiais ou nas ferramentas, é o que move o trabalho realizado no ateliê. As produções não se limitam a um único segmento (moda, decoração ou utilitários), mas exploram o universo do ponto cruz, desenvolvendo acessórios e vestuário na moda, e objetos de decoração como quadros e painéis. O bordado na cerâmica é considerado uma das peças de maior destaque da marca, no casamento entre tradição e inovação.
“Minha vida profissional não começou no artesanato. Hoje, porém, é a minha forma de linguagem, de comunicação e de me expressar. É o meu olhar sobre o mundo e como eu sintetizo conceitos. Além da marca, considero-me uma pessoa apaixonada por processos e pesquisa, que busca olhar o mundo de forma diferente e entende que tudo ao meu redor é fonte de inspiração. Tenho a beleza como minha vida e, como minha mãe me lembra, busco sempre a positividade, vendo o lado bom nas pessoas, nos processos e nas oportunidades, acreditando que tudo acontece com um propósito positivo”, pontua a artesã.

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Para a edição deste ano da Artnor, as artesãs pretendem apresentar o universo do bordado ponto cruz para aqueles que não o conhecem, além de mostrar o artesanato em várias escalas, indo do micro – em tecidos, para o macro – em objetos. “Esperem novidades. Quem não conhece o trabalho vai ficar encantado com o universo do bordado ponto cruz.”

Palha de Ouricuri: a força da tradição comunitária
O trabalho desenvolvido pela Associação das Artesãs do Pontal do Coruripe com a palha de ouricuri, palmeira nativa da região Nordeste, carrega a cultura e os costumes das comunidades locais. A técnica manual de produzir bolsas, chapéus, cestas, tapetes e itens decorativos com a fibra vem sendo passada de geração a geração, movimentando a economia local e mantendo viva uma prática milenar.
“Comecei muito cedo, por volta dos 7 ou 8 anos de idade, aprendendo a ripar a palha, a preparar a fibra, colocá-la no sol e amarrá-la, controlando o tempo para que a fibra não ficasse fraca. Quem me ensinou foi minha mãe e minha avó e, desde então, nunca mais parei”, conta Érica Gomes, artesã que faz parte da Associação do Pontal.

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Com um trabalho exclusivamente manual, cada peça produzida se torna única, com características impressas de cada uma das artesãs que modelam a fibra. As inspirações para cada produção são um reflexo da localização da Associação, que possui sede na região litorânea do estado, trazendo detalhes da natureza ao redor e da troca de experiência entre as participantes.
“Pesquisamos bastante e o mar aqui perto serve de inspiração, um lugar para parar, respirar e pensar no próximo trabalho. Observamos a natureza, como uma flor, e tentamos reproduzir suas cores. Acredito que a inspiração e o que nos move é essa troca de experiências, a complexidade do trabalho, o comprometimento, a responsabilidade, a confiança e a própria natureza ao nosso redor. Compartilhamos opiniões sobre as peças que estão sendo produzidas. Também contamos com o trabalho de designers que o Sebrae nos envia quando buscamos novas criações”, explica Érica.

Além dos produtos de mais destaque da Associação como as boleiras, conjuntos de bandeja, porta-talheres, bolsas, caixinhas e mandalas, o público da Artnor pode esperar muitas novidades. “Ultimamente tenho focado mais nas boleiras bordadas e nos conjuntos de bandeja bordados. Quem for para a Artnor pode esperar peças lindas, pois estamos desenvolvendo produtos com o Sebrae que trazem bastante cor e bordados”, destaca.
Mais do que um trabalho, a prática de criar produtos com a palha de ouricuri é sinônimo de resistência e perseverança. “O artesanato representa uma oportunidade de uma vida melhor, sendo uma fonte de renda que me permite viver com dignidade. Além da minha marca, sou mulher, mãe, esposa, uma pessoa observadora que gosta de conversar, sou tranquila e tenho orgulho do trabalho que realizo”, conclui Érica.

Artnor 2026: Vitrine do Artesanato Autoral Alagoano
O maior evento de artesanato autoral de Alagoas, a Artnor, acontece entre os dias 19 e 22 de março e promete movimentar o histórico bairro do Jaraguá, em Maceió. Com mais de 80 expositores de todo o estado, o evento ocupará o Espaço Armazém com uma programação que conecta arte, cultura, gastronomia e empreendedorismo, funcionando das 14h às 21h.
Realizada pelo Sebrae Alagoas, a Artnor vai além de uma simples feira: seu propósito é ser uma vitrine do artesanato autoral alagoano, unindo tradição, inovação e desenvolvimento territorial. A edição deste ano traz o conceito “Tecendo o Futuro”, que remete à ideia de que o futuro pertence ao feito à mão, à ancestralidade e à tradição.
Com entrada totalmente gratuita, a programação conta com a exposição dos produtos dos mais de 80 artesãos e também com oficinas ministradas por artesãos alagoanos. Todos os dias haverá apresentações culturais dentro e fora do Espaço Armazém, ocupando a rua Sá e Albuquerque e movimentando todo o bairro, como o Festival Gastronômico, desfile com marcas do estado e programação exclusiva no Teatro Homerinho.

