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Colheita inédita de crisântemos reforça potencial da Zona da Mata para floricultura em Alagoas

Produção de propriedade modelo em Viçosa sinaliza diversificação agrícola e fortalecimento de novas cadeias produtivas
Por Patrícia Bastos 
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Os tons de verde e ocre das lavouras tradicionais de Viçosa começaram a dividir espaço com uma paleta de cores vivas e vibrantes. A primeira colheita de crisântemos do município traz um novo visual para a paisagem da Zona da Mata e inaugura um ciclo de transformação econômica. A iniciativa prova que o solo alagoano é fértil não apenas para os alimentos que vão para o prato, mas também para a beleza que alimenta a alma e, principalmente, o bolso do produtor rural.

Já nas primeiras semanas desta chamada “safra de aprendizado”, os produtores perceberam a viabilidade do negócio. A iniciativa, que reúne 20 agricultores em Viçosa e outros 10 em Mar Vermelho, faz parte do projeto Plantas e Flores Ornamentais Temperadas do Sebrae Alagoas. Em parceria com as prefeituras dos dois municípios, que tem como objetivo buscar novas possibilidades econômicas, levando em consideração as características do solo e climáticas da Zona da Mata alagoana, que se mostraram muito promissores para a cultura de gladíolos e sansevierias, conhecidas também como espadas-de-são-jorge.

O florescer de um negócio dourado em Viçosa

De acordo com o produtor Gênesis Geraldo Monteiro Cavalcante, um dos nomes à frente da propriedade modelo de crisântemos em Viçosa, as flores podem ser um bom negócio para as propriedades rurais da região. Mesmo com os custos com irrigação, energia, adubação e mão de obra, a atividade é lucrativa mesmo em pequenos espaços.

Bastam três canteiros com área de 22 metros quadrados e o manejo correto para que o crisântemo, palavra que vem do grego e significa “flor de ouro”, faça jus ao retorno financeiro. Com uma produção média de três mil flores em um ciclo de 80 dias, o produtor consegue lucrar aproximadamente R$2.400 após descontar todos os custos. Para garantir a circulação de renda, Gênesis explica que a estratégia é organizar o plantio nos canteiros para colher em semanas diferentes e garantir o capital de giro.

“Quando iniciamos, fizemos plantio de mil mudas, que serviram de piloto e aprendizado para os outros produtores da região. Tivemos perdas que chegaram a 50% na primeira área e 10% na segunda, mas que serviram para que a gente fizesse as correções necessárias no solo e no trato da cultura. Os outros produtores, que aprenderam com a gente e começaram depois, já conseguiram uma safra bem melhor e estão animados”, relata.

As cores dos crisântemos anunciam uma nova fase da agricultura em Viçosa, com inovação e diversificação no campo.

O fim da desconfiança e o salto para o profissionalismo

Mas, para alcançar esses resultados, o caminho foi longo e cheio de obstáculos. O projeto teve início em 2023 e teve como primeiro desafio vencer a desconfiança dos produtores da região. Os agricultores familiares que se dedicavam apenas a culturas de subsistência, como feijão, macaxeira e milho, não viam sentido em diversificar a produção com plantas e flores de corte. “Na época, se alguém falasse em plantar flores para vender, era motivo de chacota. Todo mundo plantava alimentos porque a venda era certa, mesmo que o preço não fosse tão bom e, na pior das hipóteses, se não conseguisse vender, servia para comer. A gente não imaginava que houvesse mercado para flores fora de datas como o Dia das Mães. Então, a ideia que a gente tinha é que não compensa plantar flores”, conta Gênesis.

Para vencer o ceticismo, o Sebrae Alagoas desenhou uma estratégia para minimizar os riscos e garantir a sustentabilidade da produção. A analista Jacqueliny Martins, que coordena o projeto, explica que os produtores receberam suporte desde o canteiro até o mercado, com capacitações especializadas, missão técnica na Expoflora, maior feira de flores da América Latina, que acontece em Holambra (SP). Além disso, foi feita também parceria com a empresa Bruno Flores, que garante o escoamento da produção para floriculturas e eventos em Alagoas e outros estados do Nordeste o ano todo.

“O plantio dos crisântemos em Viçosa foi realizado inicialmente em duas propriedades, definidas como propriedades piloto, estrategicamente escolhidas por estarem localizadas em áreas distintas. Até o final de fevereiro, mais quatro propriedades estarão prontas para o plantio. Essa decisão teve como objetivo avaliar o comportamento da cultura em relação à incidência de pragas e doenças, garantindo maior segurança para a expansão da produção”, explica Jacqueliny.

Para o diretor técnico do Sebrae Alagoas, Keylle Lima, o projeto Plantas e Flores Ornamentais Temperadas demonstra, na prática, como a diversificação produtiva pode transformar a realidade do agricultor familiar. Segundo ele, a atuação do Sebrae começa no planejamento e segue até o acesso ao mercado, com assistência técnica, capacitações e orientação contínua, garantindo mais segurança para que o produtor inove de forma sustentável. “Em Viçosa e Mar Vermelho, estamos acompanhando o surgimento de uma nova cadeia produtiva, que gera renda, valoriza o território e comprova que a floricultura é uma alternativa real e viável para a Zona da Mata alagoana”, destaca.

O diretor técnico do Sebrae Alagoas, Keylle Lima, acompanha de perto os avanços do projeto Flores em Viçosa.

Resultados e horizonte colorido para 2026

Se o sucesso do crisântemo marca o início de 2026 como um marco de inovação na agricultura em Viçosa, os produtores de flores temperadas em Mar Vermelho desde o ano passado comemoram os resultados positivos das safras de sansevierias e bulbos de gladíolos, que até novembro já havia gerado aproximadamente R$ 100 mil em receita.

Além da parceria com as prefeituras dos dois municípios, as capacitações tiveram um papel fundamental para garantir o manejo profissional e a adaptação das espécies de clima temperado às condições de temperatura e solo nas estufas dos dois municípios. O consultor Jab Pasollini, especialista em design e arte floral credenciado pelo Sebrae, levou aos produtores as instruções necessárias para garantir a qualidade e o valor agregado das plantas e flores produzidas na região.

Em Mar Vermelho, os resultados do projeto são surpreendentes. Os gladíolos, que geralmente levam 60 dias entre o plantio e a colheita, se adaptaram tão bem à região que em 47 dias já estavam prontas para o corte, resultado que impressionou os agricultores da região. “Esse projeto já transformou nossas vidas e a realidade da nossa comunidade. E isso só foi possível graças ao Sebrae, que está sempre conosco”, afirma a produtora Edivane Souza.

Outra parceria essencial é com a distribuidora Bruno Flores. A empresa é responsável por transportar as mudas em caminhões frigoríficos entre Holambra, e as propriedades rurais nos dois municípios, e garante também a compra da produção, por um preço fixo, independente da época do ano. “Nas floriculturas, o preço das flores varia de acordo com a oferta e a procura. Em datas comemorativas, o preço aumenta. Mas para nós, o preço fixo neste momento é importante, porque dá uma garantia de retorno. Depois, quando a cultura estiver estabelecida e a produção for maior, nós poderemos negociar os valores”, explica Gênesis.

Para 2026, de acordo com a analista Jacqueliny Martins, a expectativa é ampliar as atividades do projeto, gerando oportunidades nos dois municípios. “Queremos que mais produtores participantes do projeto vejam esse segmento como uma alternativa real de renda, com apoio técnico e orientação contínua do Sebrae. Os resultados que obtivemos até agora são promissores e reforçam a sustentabilidade do mercado”, ressalta.

Com assistência técnica e capacitação, o Sebrae apoia produtores na construção de uma nova cadeia produtiva de flores em Alagoas.