O intersexo é uma pessoa que nasce com características sexuais biológicas masculinas e femininas. E para apresentar os desafios dos intersexuais na vida e no universo do trabalho, o MCZ Play, evento promovido gratuitamente pelo Sebrae Alagoas, trouxe a palestra online ‘Visibilizando o I: Narrativas de um intersexo aposentado’, no qual Raí Albuquerque contou sua história de vida.
Nascido no período de ditadura militar, Raí contou que os pais não entenderam bem a sua condição e somente na puberdade começaram a compreender. “Todo mundo pensava que eu era uma lésbica. Diziam que eu tinha uma certa masculinidade porque praticava handball. Na faculdade de Direito, o preconceito foi maior”, revela.
Raí recorda que alguns professores tinham um maior rigor com ele por conta do preconceito e que esse comportamento também foi reproduzido contra uma amiga lésbica. Para enfrentar o preconceito, Raí se dedicou mais nessas disciplinas. Mesmo assim, ainda encontrou barreiras ao concluir a faculdade.
“Estudei muito e nessas matérias tive um êxito maior. No fim do curso, me deparei com uma situação dantesca. Me formei em 1991 e as mulheres precisavam usar saia e maquiadas. Fiz umas calça-saias, mas essa colega lésbica caiu no choro. Só em 1997 o STF acabou com essa aberração, mas ainda passei por esse constrangimento”, lembra.
Após se formar, passou em um concurso público para um cargo na Prefeitura de Maceió, onde também sofreu com o preconceito. “Dependendo dos diretores, da pessoa, eu percebia que tinha um preconceito velado, instrumental, mas segui com resiliência sempre dando o meu melhor”, afirma Raí Albuquerque.
Raí ainda teve câncer de mama, de tireoide, passando por quimioterapia e ainda vive a menoandropausa, profusão hormonal de quem é intersexo. Mesmo passando por isso, ele busca explorar seus vários lados em sua aposentadoria, seja pintando quadros – como os que ele mostrou na palestra online – escrevendo ou andando de skate na praia.
Raí mostrou entre seus quadros um chamado ‘A história de um intersexo’ (seu autorretrato), quadros com o retrato de personalidades como Frida Khalo e Charles Chaplin e outros como a criação do universo e a devastação da Amazônia.
Tenho meus escritos, pinto e escrevo na madrugada. Uma folha que cai me faz refletir sobre esse mundo caótico, essa violência, esse preconceito, esses extremos, sejam de direita ou de esquerda, só trouxeram mazelas para o mundo. Mesmo assim, ainda acredito na força do ser humano, pois ainda vemos gestos não só dos grandes como Malala Yousafzai, mas dos pequenos no dia a dia.
Militância dos intersexos
Outro tema abordado por Raí foi a militância dos intersexos, que, segundo ele, ainda é pouco difundida no Nordeste. “Eles ficam no conforto da heterossexualidade, mas é preciso pensar para que o I do LGBTQIA+ apareça em profusão e as pessoas saibam o que é o intersexo. Aqui no Nordeste essa realidade é desestimulante, diferente do Sul do país. Mesmo assim, poucos atuam na militância. Já os trans contam com uma maior visibilidade, por conta da união”, conclui.
No debate, a analista da Unidade de Soluções e Inovações do Sebrae Alagoas, Ana Madalena Sandes, também destacou sobre a discussão do ‘I de LGBTQIA+’ na sociedade. “O ‘I’ é muito pouco falado. Muita gente não tem coragem de mostrar essa identidade, como disse o próprio Raí. Antigamente, no senso comum, as pessoas chamavam de hermafrodita. Muitos pais fazem a cirurgia do bebê, mas não espera a criança ter idade para escolher como ela vai se reconhecer no futuro”, finaliza.
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