Além dos painéis que abordaram o Afroempreenderismo, o MCZ Play 2020 promoveu na última sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, o Festival Afrocriativo. O evento contou com feira gastronômica e de artesanato, com o melhor da culinária e da cultura afrobrasileira. Além disso, os presentes ainda fizeram um tour virtual pela Serra da Barriga, em União dos Palmares.
O Festival foi realizado pelo Sebrae em Alagoas em parceria com a Câmara Empresarial de Afroempreendedorismo e a Fundação Cultural Palmares, e contou ainda com apoio da Rede Cenafro.
O espaço foi montado no estacionamento do Sebrae Alagoas, no Centro de Maceió. Por conta da pandemia, o evento respeitou os protocolos de segurança sanitária, como a quantidade limitada de participantes, a obrigatoriedade do uso de máscara por todos e a aferição da temperatura na entrada. A feira gastronômica foi um dos destaques e contou com a participação e os deliciosos quitutes da Okàn&Co., Restaurante Odara, Petiscaria Vegana, Delícias da Tia Célia e Ajeum Comedoria.
“Eu trouxe o sururu com farofa de dendê e arroz e o famoso caldo de quenga, que é feito com galinha, linguiça e macaxeira, um prato bem nordestino. E de sobremesa, bolo de chocolate e de limão”, conta tia Célia.
Ela também estava orgulhosa de poder estar no evento. “É maravilhoso participar, diante de tanta coisa que está acontecendo e que a gente está vendo por aí. É um espaço de diversão, um espaço cultural, para divulgar e abrir a mente das pessoas, valorizar o que o negro tem de bom, o que pode fazer, o que possui, o que pode transferir para as pessoas e, assim, valorizar mais a cultura negra”, destaca.
Outro prato disponível foi o abará, bastante conhecido na Bahia, mas ainda pouco difundido em Alagoas. Quem apresenta o prato é o proprietário da Okàn&Co, o chef Daniel Toledo. “O prato que eu trouxe tem uma forte pegada de comida de axé, comida afro, que eu gosto de comer e quero que as outras pessoas provem. O abará, que é comida de Xangô, tem a mesma massa do acarajé, só que temperada, recheada de camarão, gengibre, amendoim. Depois ela é envolvida na palha da bananeira e cozida no vapor. Para quem não conhece, o abará tem uma textura de pamonha, mas com gosto de camarão cremoso”, explica.
Para acompanhar o abará, xequeté, uma bebida de matriz africana feita com maracujá, gengibre, cravo e canela, e que estava disponível em duas versões, uma com e a outra sem cachaça. E tinha sobremesa também: a famosa cocada de doce de leite. Opções deliciosas, mas que também carregam muito simbolismo.
“A gente tem que se afirmar o ano inteiro, mas essa data é muito importante para a gente bater o pé e mostrar que o negro existe, que a comida afro existe, que é tão importante quanto qualquer outra comida do ano inteiro. Eu trouxe o abará que não é tão conhecido em Maceió. Trouxe para mostrar para as pessoas”, diz Daniel.
Da Ajeum Comedoria, a opção era churrasco com feijão, macaxeira, farofa e vinagrete, além de pão de alho, combo montado especialmente para a feira. A Vanessa, que estava representando o negócio no festival, reconheceu que a oportunidade era ótima para apresentar seu produto. “Não fosse o Sebrae, o Subindo a Serra, muitas empresas pequenas como a nossa não apareceriam. É uma oportunidade de venda. Não só mostrar o nome da empresa, mas gerar lucro dentro do estado”, afirma.
Artesanato e tour virtual
Não só a gastronomia, mas outros empreendimentos afro estavam representados no Festival Afrocriativo. A artesã Nadja Cabral, por exemplo, levou suas bonecas para vender. Elas são feitas de material reciclável e carregam um pouco da história da própria artista.
“Faço bonecas há três anos. A boneca já foi minha sobrevivência. Hoje trabalho em outras coisas, mas voltei a fazê-las porque foram elas que me deram minha carteira de artesã do Alagoas Feito à Mão. Eu as fiz me inspirando em mim. Comecei fazendo uma cozinheira, com a minha cor, a minha raça. Quis fazer bonecas negras, porque nas lojas a gente não vê isso, e também representando a minha origem, a religião de matriz africana”, conta.
Nadja também estava feliz em poder participar do evento promovido pelo Sebrae Alagoas, e contou que já estava realizada, ainda que não conseguisse vender nenhuma boneca. “Essa é minha primeira exposição. Corri bastante, como uma onça, para poder estar aqui. Se eu não vender nada, estarei feliz, porque estou mostrando meu trabalho para um público novo”.
O Festival ainda contou com uma apresentação de música e dança do Afoxé Odoya e um vídeo com um tour virtual pela Serra da Barriga. Por conta da pandemia, o local permaneceu fechado e reabriu na sexta-feira, em União dos Palmares, também seguindo protocolos de segurança. O vídeo, que ficou pronto em questão de dias para ser exibido, foi uma oportunidade para que todos pudessem subir a serra sem sair de Maceió.
“Eu estou adorando, principalmente porque em uma data como hoje, sem a comemoração que a gente costuma fazer, os eventos que a gente costuma ver, da grandeza que é o dia 20 de novembro, ainda assim podemos ver apresentações culturais como a do Odoya, e fortalecer os afroempreendedores. É importante que esse reconhecimento aconteça não só no 20 de novembro, mas durante o ano todo”, diz a jornalista Camila Guimarães, que prestigiou o evento.