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Economia Criativa Preta é debatida em painel no MCZ Play 2020

Mais da metade dos empreendedores criativos do Nordeste é preta ou parda; para que o setor cresça ainda mais, é preciso pensar na formalização e investir em áreas com grande potencial, como o afroturismo
Por Derek Gustavo - Savannah Comunicação Corporativa
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Um mapeamento mostrou que mais de 50% dos empreendedores criativos do Nordeste são pretos e pardos. Isso mostra a força da Economia Criativa dentro do Afroempreendedorismo. E esse tema foi debatido em painel realizado na última sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, no MCZ Play 2020, evento do Sebrae Alagoas com programação gratuita até 24 de novembro.

O painel “Economia Criativa Preta” contou com mediação de Érica Rocha, CEO da operadora de turismo cultural Alagoas Cultural e graduanda em Relações Públicas. Participaram da conversa Salete Bernardo, que é professora, pesquisadora, extensionista da Uncisal, militante da ONG feminista Ateliê Ambrosina, especializada em marketing e mídias sociais e produtora cultural; e Jéssica Conceição, turismóloga e sócia-fundadora da Alagoas Cultural, além de fotógrafa, geógrafa e professora.

“Até bem pouco tempo atrás, a gente não falava do recorte racial do segmento de Economia Criativa. E nós vivemos em um estado que tem um potencial cultural enorme, com grande influência da cultura afroindígena”, afirma Érica.

Para Salete, há um problema em Alagoas: a dificuldade de se perceber a cultura afroindígena. “A grande dificuldade da cultura afro em Alagoas é se perceber afroindígena, comer da nossa cultura, vestir a nossa cultura e, a partir daí, vestir a nossa cultura na alma. Essa dificuldade está muito ligada à questão educacional. O fato da gente não ler, não usar nosso ancestral, não saber de onde a gente veio. Se não sei de onde vim, como saber para onde vou?”, questiona.

Ela explica ainda que a pandemia fez com que os empreendedores pretos se juntassem, ainda que virtualmente. Isso criou uma rede de ajuda, que debate, se conhece e questiona o que está sendo feito para oferecer cultura afro. “A grande dificuldade [identificada nessas conversas] é o de sempre: financeiro, estudo. A gente vê hoje a dificuldade de entender os editais. Eu e outras amigas nos reunimos para ensinar ao povo preto como fazer projeto, como ler o edital. Daí surgiu o Fórum Afro. A gente brigou pelas cotas. Com a criação do fórum, tivemos a oportunidade de falar diretamente com as secretarias de Cultura do Estado e do Município. Esse saber falar é muito forte”, diz Salete.

Érica levanta um outro ponto que traz dificuldade: o acesso à internet e a equipamentos que ajudem a melhorar a comunicação nessa época em que tudo é digital. “O povo preto tem muita dificuldade. Ter uma boa internet tem custo. As ferramentas corretas têm custo, e ainda tem a burocracia. O povo preto é o povo menos remunerado. São equipamentos caros, nem todo mundo tem como manter uma internet em casa. Como todo esse processo se deu pelos meios digitais, também considero que esse fator foi problemático”, pondera.

“Eu trabalho dando aula remota. Tem momentos que dá pane, é muita informação”, pontua Salete. “A questão da economia criativa tem outro sentido. Eu aprendi o afroturismo, aprendi a ser negra. Ninguém nasce sabendo que é negro. A gente reconhece e se apropria disso com o passar da vida. Muita gente ainda não sabe que faz economia criativa. A gente precisa difundir isso, falar com as pessoas sobre isso. Não sabia que era uma empreendedora cultural criativa. Se eu não sei o que sou, como vou buscar o Sebrae, formalização? Precisa se formalizar, porque tem os editais. A ideia de abrir uma empresa, pagar imposto, não é ruim. O negócio é educar, a gente falando todo dia um pouquinho mais”.

Afroturismo

Um expoente da Economia Criativa no estado é a Alagoas Cultural, que tem pouco mais de 1 ano e já é reconhecida pelo trabalho que realiza, além de suprir uma demanda reprimida: o turismo cultural. “A indústria do turismo não tem essa noção. O potencial de Sol e praia de Alagoas é enorme, mas não é só isso”, afirma Jéssica.

Ela prossegue dizendo que “Alagoas transpira cultura negra. Geralmente pensamos na Bahia, Pernambuco, e esquece de Alagoas. O Parque Memorial, na Serra da Barriga, ainda não se consolidou como destino turístico super potente, mesmo com toda a história que possui. Foi sentindo falta dessa abordagem da nossa história, e vendo movimentos acontecendo em outros lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, que começamos a pesquisar, conversar com outras pessoas e fundamos a Alagoas Cultural”.

Os roteiros da operadora de turismo são focados no turismo cultural e no afroturismo, este último contando a história e cultura negras. “Nas nossas experiências ‘afrocentradas’, como chamamos nossos roteiros, tentamos dialogar com essa questão da economia criativa, falamos com outros atores também da cultura, gastronomia. No carnaval, desenvolvemos uma experiência para contar a história do Moleque Namorador. Uma experiência turística na zona Sul de Maceió! É importante resgatar essas histórias, resgatar a potencialidade desses territórios. Temos outros espaços que podem ser aproveitados de forma respeitosa. É respeito à nossa história, nossa cultura. É diferente de tudo o que estamos acostumados a ver no quesito de turismo. É uma empresa criativa, feita por duas pessoas pretas, que enxergam a potencialidade do nosso território e do nosso povo”, conclui Jéssica.

Salete vê um futuro bastante promissor do afroturismo na economia criativa. “Principalmente com a lei Aldir Blanc, com esses editais que estamos fomentando. Vai fazer muita empresa se ver como afroempreendedor criativo. A gente tinha uma ideia da cultura de só trabalhar nos momentos que tiver editais. Pensamos em como trabalhar isso nos momentos em que não há edital, pensar outros projetos. Com a formalidade, é mais promissor ainda, porque a gente tem a questão do apoio financeiro, dos fomentos e tudo mais. Vai ter muita coisa ainda em 2021, 2022”.

Contato para a imprensa:

Assessoria de Imprensa do Sebrae Alagoas

Débora de Brito

(82) 99162-5416

[email protected]