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Parceria entre pai e filho entalha o futuro de uma das indústrias moveleiras mais tradicionais de Arapiraca

Leonardo e Sóstenes unem a sabedoria tradicional da Léo Móveis à inovação contínua impulsionada pelo Sebrae
Por Patrícia Bastos
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As mãos já não trazem tantos calos, mas as marcas de mais de 50 anos do manuseio da madeira fazem parte da alma de Leonardo Pereira Lucena. Conhecido também como “seu Léo”, ou Léo Móveis, ele tem vivenciado um misto de sentimentos com a proximidade do Dia dos Pais, ao passar o bastão da sua empresa para o filho. Saudade de trabalhar diretamente com as mãos transformando a madeira bruta em móveis funcionais e belos. Orgulho por conseguir realizar o sonho de infância de ser um bom marceneiro e construir uma das indústrias moveleiras mais tradicionais de Arapiraca. E, acima de tudo, a confiança absoluta de que seu sucessor, Sóstenes Leite da Silva Lucena, irá conduzir o negócio tão bem, ou até melhor, do que ele próprio.

Este contexto que reúne memória e visão de futuro, combinados à cumplicidade e maturidade empresarial é que criou o cenário ideal para uma sucessão familiar bem-estruturada. A decisão de Sóstenes de abrir mão da estabilidade de um cargo público conquistado por concurso para assumir o negócio da família selou o destino da Léo Móveis. Essa jornada de dedicação contou, em vários momentos decisivos, com o suporte do Sebrae, instituição que ajudou a abrir horizontes para que a tradição artesanal caminhasse lado a lado com a contínua busca por inovação.

História entalhada na coragem e na decisão

A origem da Léo Móveis remonta um período em que a produção dependia totalmente do talento manual e do compromisso com a palavra empenhada. Tudo começou há 43 anos, dentro da casa da própria família. “Meu pai fez um serviço para a tia da minha mãe e ficou tão bom que a propaganda boca a boca se espalhou pela família”, conta Sóstenes. Naquele tempo Leonardo ainda trabalhava como empregado em outra marcenaria, até que o patrão o obrigou a fazer uma escolha, ou continuava como funcionário ou pedia as contas e seguia seu próprio caminho comercial. “Foi o primeiro ponto de inflexão da história da Léo Móveis e que determinou o seu futuro. Acreditando em si mesmo, meu pai apostou no seu talento e saiu da sala para o quintal, onde montou sua marcenaria”, acrescenta o filho.

Esse foi um dos marcos da realização do sonho de Leonardo. Sem remorso na voz, ele conta que não teve infância, que começou a trabalhar cedo e que seu sonho de menino era ser um “bom marceneiro”. A partir dos 12 anos começou a trabalhar, aprendeu de tudo um pouco, inclusive a fazer caixões, e passou por algumas oficinas de móveis, incluindo a do pai do JF, outro conhecido moveleiro de Arapiraca, até receber o ultimato e começar a trabalhar para si, numa época em que as máquinas não passavam de ferramentas manuais, não havia computadores para fazer modelos e cálculos precisos e que a credibilidade profissional era medida pelo valor da palavra.

A propaganda boca a boca crescia, assim como a fama de atender bem e cumprir rigorosamente os prazos de entrega, e, algum tempo depois, o quintal de casa se tornou pequeno para o tamanho das encomendas. O então empreendedor alugou a casa vizinha para funcionar como oficina e, para atender a demanda, trouxe o irmão, Cássio, para colaborar no processo produtivo, numa parceria que se mantém até hoje.

Com o passar dos anos, a marcenaria foi crescendo aos poucos, de forma sustentável e realista. Seu Léo conta que várias vezes chegou a virar noites na estrada, chegando a fazer até duas viagens seguidas até Maceió, levando móveis que seriam montados durante o dia em casas ou apartamentos dos clientes. A esposa, Severina Leite Lucena, também fez sacrifícios para auxiliar na rotina da empresa. “Muitas vezes, ela saía grávida, com o barrigão, para comprar material, para eu não perder tempo. Ela sempre acreditou, tanto que chegou a pagar outra pessoa para substituí-la no trabalho para tomar conta do negócio”, relata o empresário.

Tradição, inovação e laços familiares mantêm viva a história da Léo Móveis, que atravessa gerações com o apoio do Sebrae e um olhar voltado para o futuro

Com o desenvolvimento gradual, a área de produção passou a exigir investimentos em novos equipamentos e contratação de colaboradores. Em 2007, a Léo Móveis deu um passo audacioso, inaugurando o seu showroom na Avenida Ceci Cunha, numa época em que o corredor ainda era tomado por imóveis residenciais.

Esquadro do afeto e o traço firme entre gerações

Desde o início, a empresa sempre teve no ambiente familiar a sua principal sustentação. Sóstenes cresceu em meio ao pó e ao barulho das máquinas da fábrica de móveis. Era um ambiente de “reinação” e de brincadeiras, mas mesmo sem ser proibido de frequentar o local, ele também nunca foi estimulado a seguir a profissão do pai. Ambos, Leonardo e Severina, sempre tiveram em mente que os três filhos deveriam estudar até concluir a faculdade e ter a profissão que escolhessem. “Mas não tinha jeito. Qualquer folga que o Sóstenes tivesse da escola, ia para a fábrica. E ele tinha talento. Eu chegava com uma ideia e ele desenhava o modelo bem certinho, usando papel e caneta mesmo. Naquela época não tinha computador, nem outro recurso. Mas os desenhos que ele fazia davam muito certo”, conta o pai, orgulhoso.

Com o apoio dos pais, Sóstenes escolheu seu próprio caminho. Fez faculdade em Maceió, foi aprovado em um concurso público e foi morar em Brasília. Mas acabou abrindo mão da estabilidade do cargo e retornou para Arapiraca, passando a atuar na administração da fábrica da Léo Móveis. “Minha mãe, mais preocupada e querendo prover mais conforto para os filhos, sempre teve um pé atrás em virtude da instabilidade que o comércio traz. Mas, por sempre estar envolvido em todo contexto e participar de todo processo, sempre tomei a frente de resolver situações, especialmente as burocráticas. Isso abriu portas e trouxe confiança para aqueles que de fato criaram e conduziram a empresa desde o início”, relata o filho.

Ao integrar a equipe, Sóstenes trouxe sua experiência externa e a sua visão de que o mercado de mobiliário está em constante atualização para modernizar e contribuir para o crescimento da empresa. “Nesta época, o Sebrae já fazia parte do contexto e até hoje nos garante apoio para melhorar dia após dia o nosso desenvolvimento”, completa.

Leonardo relembra a trajetória construída ao longo de mais de cinco décadas na marcenaria e celebra a realização do sonho de transformar talento, dedicação e trabalho em um legado para a família

Lixando as arestas para consolidar um legado humano

A Léo Móveis seguia em um ritmo crescente até o início da pandemia de Covid-19, que abalou a economia brasileira e as finanças da empresa, que passou por momentos de incertezas, agravadas por um problema de saúde enfrentado por Leonardo. Neste período, Sóstenes se afastou temporariamente da empresa e abriu junto com a esposa a escola Quintal Livre, que se tornou referência em Ensino Infantil.

Com a total recuperação do pai, Sóstenes retornou à Léo Móveis, desta vez no comando do negócio familiar. “Entreguei tudo de mão beijada para ele, porque tem a minha total confiança. Se ele precisar de uma opinião, de uma ajuda, estarei à disposição. Só não posso mais pegar no pesado, infelizmente. A marcenaria sempre foi mais que uma profissão para mim, porque eu sempre trabalhei com amor. Quando eu era criança, meu sonho era ser um bom marceneiro e agora, olhando para tudo que já fiz e conquistei, acho que consegui”, reflete Leonardo.

Ao relembrar o passado, o mestre reflete o esforço e o sentimento colocado em cada peça. Durante muitas décadas, a sua rotina era acordar toda manhã e seguir para a fábrica, onde, mesmo contando com funcionários, continuava colocando a mão na massa. A atividade favorita dele era tornear a madeira, quando se pega uma peça bruta e a faz girar sobre um eixo enquanto o marceneiro “esculpe” usando ferramentas como formão e goiva.

“Tenho 68 anos e sinto que poderia estar na ativa ainda. Mas tenho algumas limitações. O pó da fábrica me faz mal e é um serviço pesado. Mas é muito prazeroso. É muito gratificante chegar na casa de alguém e ver aquele ambiente bonito fazendo parte do dia a dia da família, tornando mais agradável e funcional, e saber que você fez parte daquilo”, ressaltou.

Apesar de contemplar a transição da empresa com serenidade, o mestre ainda não se acostumou com a ideia da aposentadoria. “O difícil é parar de trabalhar na fábrica, que sempre foi o que mais gostei de fazer. Mas a empresa, sei que está em boas mãos”, complementa.

Inovação e parceria institucional dão polimento ao futuro

Se a paixão de Leonardo e a dedicação de toda a família garantiram a construção da Léo Móveis, o Sebrae deu grande contribuição para expandir a visão de mercado da empresa e consolidar a maturidade da gestão. O relacionamento com a instituição começou no início dos anos 2000, a partir do Arranjo Produtivo Local (APL) Móveis do Agreste, que promoveu várias ações para modernizar o setor produtivo de Arapiraca.

Leonardo recorda que uma feira produzida pelo projeto foi um divisor de águas para a empresa. Junto com Luiz Sandes ele apresentou um cenário de sala de estar, que chamou a atenção durante o evento e se converteu em várias encomendas, dentro e fora da cidade, incluindo uma loja em um shopping em Aracaju e uma ótica em Brasília. Conforme o negócio evoluiu, a atuação do Sebrae permitiu à empresa ultrapassar as barreiras regionais por meio de missões técnicas, consultorias e feiras nacionais e internacionais na Alemanha e na Itália.

“O Sebrae tem uma participação muito próxima da gente desde o princípio. Ele funciona abrindo portas, abrindo a mente e dando a consciência de que há um mundo muito mais amplo em termos de negócios”, enfatiza Sóstenes. “Eu vejo o Sebrae como uma mãe, que abraça a gente e conduz o empresário para que ele cresça. Foi por meio de conexões institucionais que fiz um MBA e hoje temos um projeto de inovação conectado com a Universidade Federal de Minas Gerais, onde lançaremos um produto exclusivo nacional focado em sustentabilidade e reaproveitamento de matéria-prima”, complementa.

O acompanhamento técnico permanente, de acordo com o analista do Sebrae Alagoas, Clébson Moreira, é um dos fatores que contribuem para longevidade de empresas como a Léo Móveis, demonstra que a sucessão familiar bem-sucedida se consolida no equilíbrio entre o respeito às origens e a abertura para o novo. Ao integrar a vasta experiência artesanal de Leonardo à visão estratégica de Sóstenes, a empresa de Arapiraca celebra o Dia dos Pais mostrando que o encaixe mais nobre de uma marcenaria é aquele que une gerações em torno do mesmo propósito.

“A longevidade de uma empresa familiar não é fruto do acaso, mas da capacidade de unir tradição, gestão e inovação. O papel do Sebrae é justamente oferecer o suporte técnico para que essa transição ocorra de forma segura e sustentável. Ver a Léo Móveis cruzar gerações fortalecida mostra que, quando a sabedoria do fundador se conecta à visão do sucessor, a empresa não apenas preserva seu legado, mas garante sua relevância e competitividade no mercado pelas próximas décadas”, conclui.

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