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Pedras do Agreste e força associativa ganham fôlego com o Sebrae Delas Artesãs

Com um crescimento de 53% no público, o evento reuniu 200 participantes para debater sobre aplicação das tendências de design ao artesanato, conexões e vendas
Por Patrícia Bastos
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Em São Sebastião, mãe, filha e neta transformam a rigidez das pedras em joias repletas de memórias afetivas; em comunidades rurais de municípios da região, mulheres encontram no artesanato a autoestima e a independência financeira. Histórias como as da Marjorie Acessórios e das mulheres da Associação de Artesãos e Artesãs de Arapiraca e Região (AAAPAR) se encontraram no Sebrae Delas Artesãs, que reuniu mais de 200 empreendedoras do Agreste. A iniciativa conectou vivências, discutiu tendências e como transformar o fazer manual em negócios sustentáveis e emancipadores.

Concebido como um ramo do programa Sebrae Delas para estimular a autonomia financeira e o empreendedorismo feminino, o encontro funcionou como vitrine e ambiente de aprendizado, buscando a conexão entre criações autorais com as tendências do mercado. Com um público 53% maior que a edição de 2025, o evento contou com a participação de Marina Gatto, gestora estadual de Artesanato do Sebrae Alagoas; Lis Nunes, jornalista, apresentadora e influenciadora digital; e Anísio Lima, produtor de moda e stylist.

Mais de 200 empreendedoras participaram do Sebrae Delas Artesãs, encontro que fortaleceu conexões, negócios e o protagonismo feminino no artesanato alagoano

Da rocha bruta ao afeto que une gerações

É nesse ecossistema de empoderamento que a trajetória das três gerações de mulheres por trás da Marjorie Acessórios sintetiza o encontro entre identidade e potencial econômico. A marca nasceu oficialmente no ambiente acadêmico da jovem Sophia Maria Monteiro Góis dos Santos, durante a faculdade de Produção de Moda, mas foi germinada muito antes pelo afeto de sua avó, Sandra Maria Monteiro Madeiro e se desenvolveu sob a liderança de sua mãe, Daniele Monteiro, com biojoias autênticas criadas a partir de elementos naturais.

A matéria-prima principal carrega a história do próprio solo alagoano. A rocha, conhecida como gnaisse, é encontrada na propriedade rural que pertence à família, em São Sebastião, e chama atenção por sua textura bruta e pelo brilho. Junto com a chamada flor de cedro, fruto aberto da árvore que libera sementes ao vento, são colhidos de forma respeitosa na natureza e, no ateliê da família, se transformam em colares, brincos, pulseiras e anéis autorais, além de ganharem novos significados ao se fundirem com a renda de bilro e o crochê, criando produções de moda.

“A Marjorie é um sonho que nasceu de uma homenagem à terra que amamos tanto, São Sebastião, e da união entre avó, mãe e filha. Uma única peça pode reunir toques de nós três. É muito bonito ver isso se materializar em um colar, um brinco ou até uma blusa, às vezes até com as três participando da produção daquela peça”, destaca Daniele Monteiro.

Os frutos dessa aliança entre ancestralidade e técnica se fortaleceram ao encontrar o Sebrae Alagoas. Durante o evento, em que a empreendedora teve a oportunidade de ampliar a visibilidade da Marjorie e também vender parte dos acessórios, ela explicou a importância dos aprendizados e do apoio da instituição. “O artesão vive o tempo todo tão dedicado à sua arte que esquece que precisa viver dela. O Sebrae entra justamente nesse ponto, pegando na nossa mão para que a gente transforme talento em sustento, ensinando sobre planejamento financeiro, precificação e até ajudando a gente se manter atualizada das tendências e do que os consumidores querem, em eventos como esse”, ressalta.

Avó, mãe e filha transformam pedras do Agreste em biojoias autorais, unindo tradição, afeto e identidade em cada criação

Conexões que estruturam produção e empoderam mulheres

Se a Marjorie é um exemplo de maturidade do design autoral, a força da cooperação coletiva é a marca da AAAPAR, que reúne mais de 100 artesãs e artesãos distribuídos na cidade de Arapiraca e em comunidades como sítio Brejeiras, Taboquinha, Piranhas e Poção. A entidade tem uma parceria constante com o Sebrae, que ajuda a capacitar os produtores nas etapas decisivas do negócio.

De acordo com a representante da associação, Marlene Roque dos Santos, a Marla, a principal barreira enfrentada pelos associados é justamente transformar o fazer criativo em uma renda sustentável. Enquanto a maioria das associadas aprende as técnicas de artesanato com outras mulheres da família, o Sebrae é responsável por mostrar que o fuxico, o crochê e o bordado podem ser o instrumento de emancipação feminina.

“Muitas artesãs começam sem noção alguma de como precificar uma peça, e o Sebrae nos ensina a calcular, custos, divulgar nossos produtos e fazer marketing nas redes sociais. E isso é só um exemplo, porque a nossa parceria vai muito além disso. Para a mulher, o artesanato é muito mais do que um passatempo. Ele tira as mulheres da depressão, devolve a autoestima delas, dá um ofício e promove a convivência. É um empoderamento transformador. Participar desse evento é justamente isso. A gente volta para casa feliz, não só por ter vendido algumas peças, mas principalmente por se sentir valorizada e importante, e também pela oportunidade de conhecer novas pessoas, trocar ideias e experiências”, explica Marla.

Para Marla, da AAAPAR, o artesanato gera renda, autoestima e autonomia, enquanto o Sebrae oferece ferramentas para transformar talento em negócio

Motor contínuo da economia criativa em Alagoas

O sucesso do Sebrae Delas Artesãs é reflexo da consolidação da economia criativa alcançada por meio de ações institucionais executadas pelo Sebrae Alagoas, por meio de um plano contínuo, que envolve capacitações técnicas, incentivo à formalização de negócios, consultorias de design e também por meio de programas, como o Sebrae Delas, que promove encontros periódicos em Arapiraca.

E incentivar o artesanato é fortalecer o empreendedorismo feminino. Em Alagoas, 86% das produtoras de peças artesanais são mulheres e fazem parte da herança familiar. De acordo com Marina Gatto, gestora do programa de Artesanato do Sebrae Alagoas, o sucesso de feiras como a Artnor e a Fenearte, mostram que a moda e o perfil de consumo estão se voltando para o feito a mão.

“É o que chamamos de slow fashion, que diferente do fast fashion das grandes lojas de varejo, que produzem peças de vestuário em série. O que é valorizado hoje são peças únicas e que contam uma história. Estar na moda hoje não é só seguir tendência de cor e modelagem. A moda hoje é ter significado, é ser autêntico. E aqui em Alagoas nós temos um dos artesanatos mais diversificados do país. Nosso potencial é enorme e já temos alguns nomes reconhecidos lá fora, mas podemos ter muito mais”, reforça.

Entre as ações da instituição para fortalecer o segmento, o Inspire-se, já tem data e local. O maior evento de moda do interior de Alagoas vai acontecer no dia 26 de setembro, no Espaço René, em Arapiraca, com programação ampliada e o desfile de criações de estilistas locais. Além disso, o Sebrae também promove feiras voltadas para o artesanato, como a Artnor, e realiza missões técnicas para eventos como a Fenearte, que aconteceu em Pernambuco no início do mês.

“Todas essas ações cumprem um papel estratégico dentro do artesanato e com o Sebrae Delas Artesãs não é diferente. Nosso objetivo principal é fazer com que elas entendam o valor da sua criação e que passem a criar produtos que deixem de ser vistos como uma lembrança apenas, mas que possam se tornar objetos de desejo em peças que passem a fazer parte do cotidiano das pessoas. O Sebrae fortalece o artesanato porque, mais do que uma ocupação, é uma importante fonte de renda e da preservação da cultura”, ressalta Susylane Ferreira.