Referência em comida natural em Maceió, o restaurante Serafim atravessou mais de uma década de transformações, enfrentou o cansaço, o luto e as exigências de um dos segmentos mais competitivos da economia para reabrir em nova fase, sem abrir mão da essência que o tornou símbolo de afeto, acolhimento e consciência alimentar na capital alagoana.
Criado em 2012, o Serafim carrega uma herança que começa muito antes da abertura das portas. “Tudo começou em casa”, relembra o sócio Uriel Diaz Langou. “Meus pais já tinham essa relação com a comida natural há mais de 40 anos. Faziam yoga, meditação, seguiam a macrobiótica. Minha mãe sempre cozinhou muito bem. Isso sempre fez parte da nossa vida”, explicou Uriel, que iniciou o projeto Serafim junto a sua mãe, Nídia Battaglia.
Filho de pais argentinos, Uriel carrega uma história marcada pelo movimento. Antes de se fixarem em Alagoas, os pais de Uriel percorreram diferentes estados brasileiros vivendo em um barco por mais de cinco anos. “Meu pai se apaixonou por Alagoas e decidiu ficar. Foi aqui que eu nasci. E foi aqui também que essa história começou a criar raízes”, conta Uriel.
A cozinha da mãe, elogiada por amigos e frequentadores da casa, foi o embrião do negócio. “Todo mundo dizia que ela precisava abrir um restaurante. Ela fazia pratos com berinjela quando ninguém falava disso. Uma visionária! Eram sabores diferentes, naturais, mas cheios de identidade.”
O primeiro teste do Serafim aconteceu de forma quase intuitiva: um evento na então casa da família, na Ilha de Santa Rita, em Marechal Deodoro, no Dia dos Pais. “A gente queria saber se tinha público e deu muito certo. Aquilo mostrou que existia espaço para essa proposta”, relembra.
Poucos meses depois, o restaurante abriu oficialmente as portas, no bairro da Jatiúca. Uriel tinha apenas 18 anos. Sem investimento externo, o negócio foi construído com o que havia à disposição. “A decoração era da nossa casa. Um amigo emprestava dinheiro, outro ajudava de alguma forma. O dinheiro do almoço era o dinheiro para comprar os insumos do dia seguinte. A gente fazia tudo.”
Durante mais de dez anos, mãe e filho tocaram o restaurante juntos. Ela cuidava da parte administrativa; ele, do salão, do atendimento e de tudo o que fosse necessário. “Empreender é isso. A gente faz de tudo. Estava no atendimento, na cozinha, onde precisasse.”

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Nunca foi só restaurante
Ao longo dos anos, o Serafim se consolidou como um espaço plural. Um lugar onde comida, cultura e afeto caminharam juntos. “Nosso restaurante sempre foi um espaço de acolhimento. Todo mundo é bem-vindo. Nosso público sempre foi muito diverso, de todas as idades, gêneros e estilos”, diz Uriel.
Esse vínculo afetivo ficou evidente quando, em fevereiro de 2025, o restaurante anunciou o encerramento das atividades. O cansaço físico e emocional falou mais alto. “A gente precisava parar, descansar, se reorganizar. Foram muitos anos de entrega.”
O fechamento, no entanto, deixou um vazio na cidade. “As pessoas sentiram muito. Porque ali existia algo além da comida. Existia uma troca.”
Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de reabrir a marca em um novo formato. A ideia era seguir com o legado, mas adaptado a um novo momento. O processo já estava em andamento quando Nídia, mãe de Uriel, faleceu. “Ela se foi há cerca de quatro meses. É tudo muito recente. Sentimos muito a falta dela, mas a nossa história continua aqui no Serafim, por ela, por nós, por um legado, decidi continuar”, conta Uriel emocionado.
A nova fase do Serafim ganhou endereço no coração da Ponta Verde, na galeria do hotel Holiday Inn. O projeto arquitetônico é assinado pelo estúdio alagoano Pitaya, das arquitetas Layanna Rocha e Mahyra de Lima, e traduz com sensibilidade a união entre o contemporâneo e a memória afetiva.
O espaço é menor, mais intimista, vibrante e acolhedor. Nos detalhes, a história permanece viva. Objetos que faziam parte da antiga decoração caseira agora ocupam prateleiras e cantos do novo restaurante. Entre eles, o retrato da matriarca, que segue presente como símbolo de tudo o que foi construído.

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Comer bem e gostoso
O cardápio acompanha essa filosofia. O Serafim se define como um restaurante natural, com opções vegetarianas e veganas, majoritariamente sem glúten, com influências da macrobiótica e da alimentação viva. “A alimentação natural não precisa ser complicada. A gente trabalha com o ingrediente, com o aroma, com a textura. A criatividade está na junção”, explica Uriel.
Entre os pratos autorais estão a Árvore da Vida, a berinjela crocante inspirada na milanesa argentina e a feijoada de cogumelos, carro-chefe da casa. “O primeiro princípio da nossa cozinha é que se alimentar bem precisa ser gostoso. Nosso desafio sempre foi quebrar esse preconceito.”

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Resiliência em um mercado desafiador
A história do Serafim se destaca ainda mais diante dos números do mercado. Dados do Radar Sebrae mostram que o segmento de bares e restaurantes em Maceió reúne 2.511 empresas ativas, mas enfrenta uma taxa de mortalidade de 69%, com o fechamento de 1.734 negócios entre 2020 e 2024. No segmento de lanchonetes, são 2.635 empresas e mortalidade de 66% no mesmo período.
Para a analista do Sebrae Alagoas, Vânia Britto, os dados reforçam a importância da gestão e do acompanhamento técnico. “Empreender em alimentação exige planejamento, controle financeiro e clareza de posicionamento. O Sebrae atua para apoiar o empreendedor em todas essas etapas, oferecendo orientação e capacitação para tornar os negócios mais sustentáveis”.
O Serafim contou com esse apoio ao longo da trajetória. “Eles ajudavam a organizar a visão, os objetivos, a parte financeira. Dava uma segurança, um norte”, relembra Uriel do início de tudo.

Para o diretor técnico do Sebrae Alagoas, Keylle Lima, histórias como a do Serafim mostram que o pequeno empreendedor pode crescer com identidade. “O Sebrae é para quem começa pequeno, mas pensa grande. Nosso papel é caminhar junto, fortalecendo negócios que geram impacto, cultura e desenvolvimento”, disse.
Hoje, o Serafim floresce novamente. Em novo endereço, nova fase, mas com a mesma essência. Um restaurante que segue alimentando corpos, memórias e futuros, provando que, mesmo em terrenos desafiadores, é possível criar raízes profundas e continuar a florescer.

